Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo. Espécie de acessório ou sobressalente próprio, arredores irregulares da minha emoção sincera. Sou eu aqui em mim, sou eu. Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
(Source: e-nclausurada, via b-a-n-d-o-l-i-m)
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
(Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão)
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
(Feito essa gente
que anda por aí brincando com a vida
Cuidado, companheiro
A vida é pra valer
Não se engane, não
É uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem sem provar
muito bem provado com certidão passada em cartório do Céu assinado em baixo: Deus!
E com firma reconhecida
A vida não é de brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher a sua espera
com os olhos cheios de carinho
e as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida,
como no seu samba)
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
(Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, A bênção Cartola,
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do meu Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas a viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceirinho cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento, a bênção
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá!
A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus)
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração.
De partida, estudar. Beijos pro’cês e até mais tarde. Diversão aos que ficam!
Sentou-se e ficou por alguns instantes a observar os pequenos detalhes que continham naquele local que tanto amava. Pouco após, tirou de seu bolso um bloco de notas e um velho lápis, assim… Começou:
— A estação sempre fora um dos locais que mais apreciei, tenho um apreço dos grandes pelas pessoas indo-e-vindo. Gosto de vê-las caminhar. Aquele caminhar ritmado, um passo seguido de outro e outro que segue o próximo e o próximo, assim, sucessivamente. Essas coisas, deveras comuns, sempre encantaram a mim. Encanto-me com gestos simples, aprecio coisas dóceis e pequenas-tão-simples-atitudes podem fazer que um homem como eu, apaixone-se perdidamente – quem sabe até encontre o tal do amor da vida? Permita-me dizer: eu acredito nesta estupidez que é o amor verdadeiro. Acredito plena e fielmente que, um dia, atravessando a rua para uma entrevista de emprego, ou até mesmo sentado aqui, nesta estação, o amor da vida – seja tua, seja minha, daquela avó de setenta e sete anos bem completos – olhará nos olhos e, naquele instante, saber-se-á que foram feitos assim: açúcar e sal, completando-se nas mais diversas divergências. A estupidez a qual me refiro, ela vira brigadeiro de panela quando se ama; as brigas que a geram são das mais deliciosas que existem. Mas… Fomos lá, agora venhamos cá: hoje eu quero é falar do amor da minha vida. Não! Não! Falei errôneo, corrijamos: eu quero falar para o amor da minha vida. Hoje eu quero brincar com as palavras, deixá-las soltas; deixá-las falarem por si só. Quero diversão enquanto rabisco esse bloco de notas. Quero mais do que isso! Eu quero rir. Hoje eu quero rir como jamais ri em minha vida; eu quero observar esses passos seguidos de passos e, basear-me em minha teoria, na crença fiel de que, como diria minha falecida-deliciosa-bisa que, para todo par de calças existe um sapato que combine, ou… Vamos para um mais conhecido: toda panela tem sua tampa. Falemos com esse músculo cardíaco: não há coisa mais viciante do que o sentimento de viver uma paixão dessas… Dessas que lhe fazem acordar sorrindo. Mas observemos: sorrindo apenas por sorrir.
Para contrariar meu hábito-cotidiano, são oito horas da manhã e estou sentado neste banco duro da estação. É desconfortável, mas está parecendo que o forraram com seda e que todos estão sorrindo: talvez pela manhã de sol – esqueci-me de citar que não temos uma manhã de sol há dias, talvez tenha completado um mês (ou mais?), mas o que digo é que há algum tempo, temos tido muito frio nesta região; todos os dias a moça-do-tempo diz-nos: previsão de chuva para o dia seguinte… E o dia seguinte, e o dia seguinte, e o dia seguinte, completemos esta página assim, de dias seguintes. Mas hoje temos sol. Não temos chuva nem frio, temos uma bola-de-fogo sem dimensão brilhando em nosso céu e queimando a pele de crianças nos parques e bosques, enquanto divertem-se com seus brinquedos de areia. Do que mesmo falava? Ah, lembrei-me, costumo vir às oito da noite… Acordei cedo. Cedo como não acordo desde o colégio, talvez. Quando meu velho-bom-pai ainda esquentava aquela caneca transbordando leite com chocolate em pó. Desde lá!
Caminhemos um pouco mais. Hoje – reparem o problema que estou tendo com o dia de hoje, mas não me culpem por repetir tantas vezes esta palavra. É que… (hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje, hoje) eu pude fotografar em meus pensamentos o ninho-de-amor em que viverei até meu último sonolento dia. E sim, sim, você poderá reparar também que este, meu caro ou cara, é mais um texto repleto de “passarinhos” verdes. É repleto de amor. É uma declaração para o amor! Ô amor, tu estás a me ouvir? Estás a me ler? Leia-me. Venha comigo. Deixa-me desculpar novamente. Agora sim, prometo, meu amigo interlocutor… Paro por cá de encher linguiça.
Acordei às sete e meia e nem se quer precisei de um despertador, aconteceu por si só. Meus olhos abriram-se e, em um lugar em que eu nunca estive antes, eu estava naquele momento. Mas, ainda que não tivesse nunca pisado naquele chão, era como se eu vivesse lá há tantos anos. É como se conhecesse cada detalhe daquela casa, e é como se cada defeito de sua estrutura, fosse os defeitos da minha. Todas essas palavras, sim, elas são simples e completamente para contar a vocês o que foi que vi.
Tínhamos lírios em nosso jardim. Eu nunca pensei que, um dia, teria lírios em meu jardim. E digo-te um pouco mais: eles eram todos coloridos. Pássaros habitavam o que eu chamava de espaço de vida. O tal espaço nem era mesmo tão grande, mas os poucos metros continham em si, vidas tão vividas quanto à de uma senhora-de-muletas com seus noventa e oito anos, nove filhos, trinta netos, trinta e cinco bisnetos e três ou quatro tataranetos. Pássaros, formigas, borboletas, gafanhotos… Ah, eram tantos deles habitando nosso quintal! Mas, prossigamos. A sala tem cores explicitamente vivas e cheias de charme, eu tenho certeza que foi o toque de suas mãos com aquelas tão bem feitas pinceladas que fizeram essa belezura! As paredes pareciam cantar. Aquele nosso sofá, eu confesso a vocês, não era nem um pouco novo nem dos mais caros, mas era tão confortável e cheio de histórias para contar. Frente a ele, uma estante com tantos livros – a nossa biblioteca particular – fora construída, como tanto desejamos – não é? É! Ô amor…
Então caminhei, passei sobre um tapete desses grandes que parecem um colchão e podia, em algum lugar de minha mente, ouvir suas reclamações sobre como seria ruim tirar o pó que aquele desnecessário tapete juntara sempre. Mas não importava, pois você queria aquele tapete. E eu também. Eu sempre quis tudo o que você quis. Fomos feitos repletos de sonhos que andam por aí de mãos dadas, e amor, fora isso que nos fizera tão únicos! Somos esse ser de uma alma em dois corpos. Agora, vamos… Vamos mais longe. As cortinas desta mesma sala eram claras, e os raios de sol passavam por frestas que os permitiam. A claridade nos impedia de enxergar direito à nossa televisão. Vocês querem mesmo saber? Erraram. A nossa televisão não era dessas modelos oito mil seja lá o que isso signifique. Compramos uma relíquia! Antiga e especialmente bonita. Bonita como tudo o que viera do nosso trabalho juntos. Tínhamos também mais coisas como essa. Um rádio, relógios e objetos de decoração, todos antigos. Senão, retrôs. Um desses aparadores apaixonantes… Lembra-se de quando o escolheu? Olhou um a um, dos tantos móveis usados que havia naquela loja empoeirada com a mulher de cabelos vermelhos pintados nos atendendo.
O que nos falta? Ah, sim! Como pude me esquecer. Se não fora todo, a maior parte do dinheiro que juntamos, juntamos para comprar aquela sua banheira de pés. Aquela que você tanto queria antes de nos… Nos. Compramos a banheira e eu podia vê-la coberta de rosas e espuma e sorrisos. Piegas demais? Eu não me importo não, amor! Soube desde o começo que fora com um piegas, romântico, perdido em séculos passados que resolvera cas…
Mas, retornemos a sua banheira: ela ficara linda em nosso toilet que continha também uma dessas duchas grandes, bonitas. Um espelho que poderia refletir todo o seu corpo nu; além do mais, como se não estivesse bonito o suficiente, você sempre se importou em comprar aquelas toalhas bordadas que a senhora da frente bordava e nos oferecia! Eu sei, perdoe-me, mas li algumas páginas de seu diário… Em que contava o quão não ligava para as toalhas, mas preocupava-se com o arroz daquela senhora. E também com os remédios para hipertensão. Pobre senhora!, mas que coração bom desta minha… Minha!
Deixemos essas lacunas para o fim, aliás, para as preenchermos no fim.
Agora podemos ir à cozinha? Lá é que aprendemos juntos, a fazer as mais belas experiências culinárias. Não nos saímos muito mal para tão iniciantes, não é? Quem é que se importa de salgar o feijão ou “empapar” o arroz? Ninguém! Amor… Eu sabia fazer brigadeiro, sabia fritar ovos, cozinha-los e fazer macarrão instantâneo. Nós podíamos viver! E vivemos, mas não pelos meus dotes e sim pelos teus, que fazia aquelas mágicas refeições que eu tanto apreciava. - Como é mesmo que você aprendeu a ser bonita, inteligente, generosa e cozinheira? – pensamento à toa, mas acredito sim que fora aquela mulher a qual engasguei tantas vezes para dizer: olá, sogra!, que lhe ensinou. Não fora? Sei que sim. E nessa nossa cozinha os momentos tornaram-se inesquecíveis a quem os viveu. A nós. Não me esqueço de nada. Não consigo apagar nenhum mero detalhe bobo, que seja, de minha mente. Mas o que acha de caminharmos até o nosso mundo? Não que esse, descrito até então, não faça parte dele. Mas falo do mundo em que vivemos os mais felizes momentos da minha vida. Quarto nosso! Precisamos de pouco para fazê-lo perfeitamente encaixável aos nossos corpos. Uma cama grande, dessas confortáveis (não importamo-nos de gastar com ela, pois era nela que passaríamos a maior parte de nosso tempo); não muito longe, uma mesa com coisas minhas, outras suas: não que importássemos de dividir as coisas, mas às vezes o trabalho ou estudos nos apressava demais. Logo, tínhamos um guarda-roupa que você organizada sempre, reclamando e reclamando dos modos que herdei. Importar-me? Nunca! Nunca importei-me. Uma das faces mais bonitas que já vi formar-se em seu tão belo rosto é dessas, dessas quando está irritada, chateada ou extremamente brava com algo que fiz. Seus olhos ficam baixos, desvia-os dos meus; o sorriso some e um pequeno, disfarçado “bico” surge em seus lábios, mas não consegue mantê-los muito tempo, pois eu não consigo manter-me distante muito tempo: logo quero abraça-la e beijá-la e leva-la para nossa cama e com você, só com você!, mulher, viver o que eu chamo de amor. Ah, estúpido! Como eu pude esquecer-me de citar as venezianas azuis nas nossas paredes – externas – brancas com detalhes impecáveis que você inventara e o pedreiro teve de rebolar para concluir… Como pude esquecer-me? Conseguimos tudo o que queríamos quando éramos aqueles jovens cheios de sonhos, recorda-se? Queríamos tanto, mas, deixe-me lembra-los que o tanto que queríamos está descrito nas linhas acima. Queríamos uma casa nossa, do jeito nosso. Queríamos o amor nosso-só-nosso. Queríamos construir uma família – construímos. Queríamos viver essa bênção estupidez que é o amor verdadeiro! E vivemos. Agora, minha velha… Senta aqui do meu lado neste banco duro que eu tenho que lhe contar o fim:
(A doce senhora sentou-se ao lado de seu doce senhor e olhou-te nos olhos, na estação, onde ele, eu, você ou qualquer outro poderia encontrar o amor verdadeiro).
— O que ficou por dizer nas lacunas é que, casamo-nos, você é minha esposa e essa é nossa vida. O fim desta estória é que estamos a tantos anos juntos, que toda essa coisa, o brigadeiro de panela (sabe?), não tem fim. Não terá, nunca, se depender de mim. Pois… Minha velha, desde nossa juventude, é por ti que sou apaixonado e, você sabe… Os pássaros e formigas e borboletas e gafanhotos podem contar também.
A poesia permanece morta nos lábios daqueles que profanam a mentira. Jazem em silêncio as batidas que deveriam ser eternizadas em lapsos de beijos apaixonados, porém, tudo se desfaz em segundos num prelúdio insano da consternação que viveremos solitários pelos jardins secretos de almas que ainda anseiam por amor. O que faremos do amar se não amarmos e sermos amados hoje? Tenho medo, Deus, de não sobrar mais poesia em nós.

